
Na década de 70, o saxofonista Wayne Shorter explorava novos rumos em sua carreira, após temporadas como integrante do Jazz Messengers, do baterista Art Blakey, e do Miles Davis Quintet. Cansado dessa chatice toda - tocar com Art Blakey e Miles Davis devia ser muito chato, não é mesmo? - Shorter formou o Weather Report, grupo que revolucionou o jazz e fundiu a cabeça dos críticos musicais. Diversos gêneros foram criados para definir o trabalho do grupo, como progressive-jazz, jazz-rock, ou ainda o ultrapassado modern-jazz.
Acontece que no Weather Report havia um brasileiro. Era o percussionista Airto Moreira, já radicado nos EUA com sua esposa, a cantora Flora Purim. Através dele, Wayne Shorter tomou conhecimento do trabalho de dois jovens compositores brasileiros: Lô Borges e Milton Nascimento, que acabavam de lançar o Clube da Esquina.
Foi o suficiente pra Shorter tirar uma folga do Weather Report e convidar Milton Nascimento, Herbie Hancock, Robertinho Silva, Wagner Tiso e o próprio Airto Moreira para gravar Native Dancer, até hoje considerado um dos mais importantes discos do saxofonista.
E não é pra menos. Native Dancer possui acima de tudo, faixas bonitas, com uma leveza e profundidade de arranjos capazes de agradar do tiozão do american bar ao fã de Pink Floyd. O entrosamento dos músicos é total, e fica difícil acreditar que Wayne Shorter e Herbie Hancock não são mineiros. Uai sô!
O resultado é uma unidade belíssima, do começo ao fim. Desde a capela inicial de Ponta de Areia, até a suave Joanna's Theme, de Hancock, tudo flui naturalmente. Milagre dos Peixes, From The Lonely Afternoons e Lilia são os pontos altos do disco e se alternam com momentos mais introspectivos, como Tarde, Diana e Ana Maria.
O disco abriu os olhos do mundo para os membros do Clube da Esquina, foi aclamado por músicos internacionais e fundiu mais um pouco a cabeça dos críticos, que depois de ouvirem Native Dancer criaram mais um gênero, o World Fusion, seja lá o que isso signifique. Melhor mesmo é ouvir o disco, sem se importar com estilos.
Native Dancer (1974)
01. Ponta de Areia
02. Beauty and the Beast
03. Tarde
04. Miracle of The Fishes (Milagre dos Peixes)
05. Diana
06. From the Lonely Afternoons
07. Ana Maria
08. Lilia
09. Joanna's Theme
12.2.08
Wayne Shorter - Native Dancer (1974)
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9.2.08
Linton Kwesi Johnson - Bass Culture (1980)

Foi num feriado de 1995, numa volta por Copacabana com os amigos-irmãos Paulão e Augusto, que conheci o poeta jamaicano Linton Kwesi Johnson. Não sei se foi a brisa do mar, mas pirei o cabeção no momento em que ouvi o Bass Culture. Pedi pro Paulão repetir o som, e o disco está no "repeat" até hoje!
Johnson - pros íntimos, LKJ - nasceu no berço do reggae, mas foi em Londres que ele desenvolveu sua veia artística e seu engajamento político. Em meio às tensões típicas do violento bairro de Brixton, LKJ publicou seus primeiros poemas em 1974, no jornal Race Today. Ele também foi membro do movimento Black Panther, mas seu ativismo era praticado através de sua literatura e de seus discos.
E que discos! Em parceria com o produtor Dennis Bovell, LKJ musicou seus poemas de forma brilhante e se tornou um dos principais nomes do Dub Poetry.
Bass Culture é a melhor expressão do gênero. Bases de baixo espetaculares permeadas com frases marcantes de metais e guitarras formam a trilha sonora para os poemas de Linton. O resutado é irresístivel. Nas letras, críticas ácidas, indignação e até uma leitura com arranjos desconexos - a la Jim Morrison - dão forma a essa Cultura.
O disco começa arrebatador, com Bass Culture, uma pedrada sem refrão que pode mudar sua vida. Street 66 mantém o bom nível com sua atmosfera de crônica policial. Qualquer semelhança com "Um Homem na Estrada", dos Racionais MC's é mera coincidência.
Reggae Sounds é bem conceitual, repleta de colagens muito bem executadas e descrita como o ritmo de uma tempestade tropical e elétrica. O lado politizado do disco fica por conta de Reggae Fi Peach, feita em homenagem ao ativista Clement Blair Peach, morto em 1979 pela polícia inglesa em uma manifestação de rua, e Inglan is a Bitch, cujo título explica bem a "satisfação" de LKJ com as desigualdades sociais no país.
Loraine, uma das minhas preferidas, é o romance. Imagine você, gatinha, ouvindo seu pretendente lhe falar ao pé do ouvido: "whenever it rains, i think of you..." em meio a uma levada cheia de segundas intenções. Impossível resistir. Se Barry White fizesse o seu famoso xaveco em reggae, essa seria a música.
Quem já conhece o Linton Kwesi Johnson, sabe do que eu estou falando. Se você nunca ouviu falar, pode ir na fé. Seu reggaezinho básico nunca mais será o mesmo.
Bass Culture (1980)
01. Bass Culture
02. Street 66
03. Reggae Fi Peach
04. Di Black Petty Booshwah
05. Inglan is a Bitch
06. Loraine
07. Reggae Sounds
08. Two Sides of Silence
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8.2.08
Sublime - Robbin' The Hood (1994)

Eu lembro como se fosse ontem do dia em que minha amiga Mima, hoje maquiadora de celebridades, me apresentou uma fita K7 de uma banda que viraria uma febre entre nossos amigos e deixaria meus outros discos morrendo de inveja. Estávamos em 1994, não queríamos saber de nada e éramos metidos a rebeldes. Não sei por quê, nem onde isso iria nos levar, mas seja lá onde fosse, seria ouvindo Sublime.
Como no post anterior, o local é a Califórnia, mas agora nos anos 90, dos skatistas e surfistas. O movimento hip-hop se misturava com o punk, o ska e o reggae, e a melhor tradução dessa mistura era o Sublime. O trio esbanjava técnica e criatividade para explorar todos esses ritmos de maneira às vezes trivial, às vezes inusitada, mas sempre com qualidade e acima de tudo, se divertindo.
Robbin' The Hood, o segundo disco da banda, mostra bem isso. Recheado de colagens e vinhetas que lembram filmes antigos americanos, o disco é um mar de referências. Tem batidas clássicas de hip-hop (Q-Ball), uma versão rap (Cisco Kid) de When The Music's Over, do Doors, além de surf music, blues e várias outras surpresas espalhadas ao longo das faixas.
Não deixe de conferir Greatest Hits, Saw Red - com Gwen Stefani nos vocais, antes da fama - e Free Loop Dub. Atenção também para Steppin' Razor, reggae clássico de Joe Higgs, que ficou famosa na voz de Peter Tosh. Aqui, a faixa é no mínimo engraçada, no melhor estilo Latino - o gênio da festa do apê.
Por fim, as duas versões de Pool Shark. A original, uma pedrada hardcore de menos de um minuto, e a acústica, bela balada onde um melancólico Brad Nowell anuncia seu caminho rumo à overdose de heroína que o tiraria dos palcos dois anos depois. "One day i´m gonna lose the war".
Assim como a empolgação rebelde da minha turma, o Sublime também não durou muito. Mas que esse tempo foi emocionante, isso foi. Ouça o disco e saiba por quê.
Robbin' The Hood (1994)
01. Waiting For Bud
02. Steady B Loop Dub
03. Raleigh Soliloquy Part I
04. Pool Shark (Original)
05. Steppin' Razor
06. Greatest Hits
07. Free Loop Dub
08. Q-Ball
09. Saw Red
10. Work That We Do
11. Lincoln Highway Dub
12. Pool Shark (Acoustic)
13. Cisco Kid
14. Raleigh Soliloquy Part II
15. STP
16. Boss DJ
17. I Don't Care Too Much For Reggae Dub
18. Falling Idols
19. All You Need
20. Freeway Time in LA County Jail
21. Mary
22. Raleigh Soliloquy Part III
7.2.08
Jefferson Airplane - White Rabbit & Other Hits (1990)

O Jefferson Airplane é a pedra fundamental do rock psicodélico americano. Criado em 1965, o grupo é referência obrigatória quando se fala na cultura Flower Power e se tornou a trilha sonora do amor livre e da expansão das mentes na década de 60. Até hoje, quando vemos representações de hippies em meio a cenários coloridos e viajantes, acredite: foi o Jefferson Airplane quem iniciou tudo isso.
Com discos sugestivos como Surrealistic Pillow (1967), Crown of Creation (1968) e Volunteers (1969), o Jefferson Airplane derreteu a sociedade americana, embalou o engajamento pacifista durante a Guerra do Vietnã e teve seu ápice no Festival de Woodstock, bradando seu refrão mais famoso: "Feed your head"!
Me lembro a primeira vez que vi o clipe de White Rabbit, foi arrebatador. A ponto de achar a vocalista Grace Slick, hoje uma sessentona, a maior gata do rock. Será que eu estava viajando também?
Aqui, uma coletânea remasterizada em 1990 pela RCA, antiga gravadora da banda, já sob a tutela da BMG. O disco é rápido, com apenas oito faixas. White Rabbit é obrigatória, pra mim uma das melhores músicas de todos os tempos, regravada por gênios como George Benson e Patti Smith. Apesar dos 2 minutos e meio da faixa, ela pode levar você ao país das maravilhas por muito mais tempo.
Somebody to Love e Volunteers também cansaram de aparecer em regravações e trilhas sonoras de diversos filmes famosos.
Uma curiosidade: O fundador da banda, Marty Balin, era dono de uma casa de shows em San Francisco chamada "The Matrix". Lembram que no filme The Matrix (1999), o herói Neo vai atrás de um tal Coelho Branco que bate na sua porta?
Pra ouvir tranquilo e relaxado.
White Rabbit & Other Hits (1990)
01. It's No Secret
02. Somebody To Love
03. Today
04. White Rabbit
05. Embryonic Journey
06. Crown Of Creation
07. Plastic Fantastic Lover
08. Volunteers
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6.2.08
Zumbigo - Zumbigo (2001)

O disco homônimo da banda paulistana Zumbigo tem um peso importante para diversos grupos que estão hoje em evidência no cenário musical independente de São Paulo. Na época, o mercado da música ainda não estava em crise, o Napster era uma novidade e não se via tanta banda independente. Myspace, Trama Virtual e Fotolog então, era papo de louco.
O Zumbigo era formado pelo baterista Chapolin , acompanhado na cozinha pelo baixista Renato mC , com Fabiowski na guitarra e Daniel Padilha no violão e vocal. Hoje, Chapolin é o baterista oficial das bandas Seychelles e Ludov. Fabiowski virou o produtor Fábio Pinc, comanda o estúdio 12 Dólares, os teclados do Mammacadela, acompanha o Ludov no baixo e embala casais e celebridades em suas festas com a S.O.S. Renato mC viaja o Brasil trocando experiências com produtores de todos os gêneros em oficinas de criação musical voltada pra Creative Commons e tocando baixo na banda Heroees e Seychelles. Já o Daniel Padilha cansou de trabalhar com fodões das majors, atirou o sapato no rio, comprou duas passagens pra PQP e foi pra Londres com o seu amor.
Pra mim, nada mudou, continuo fã absoluto de todos eles.
O disco tem a produção do Fernando Lauletta, que depois desse trabalho se manteve um parceiro constante pras bandas que vieram depois do Zumbigo. O álbum é bem coeso, tem boas linhas de baixo - com destaque pra PQP e sua vinheta de abertura, e De Volta Pra lá - guitarras ora swingadas - Lata e Apaga o Fogo - ora com efeitos mais sombrios - Americano - que dão a cara hoje nos trabalhos do Seychelles e Mammacadela.
Como coloquei no post anterior, A Música me Leva abre o disco, e também abriu o caminho pro trabalho de todos. Mesmo sendo o filho único do Zumbigo, foi a trilha sonora de muita balada nas épocas boas da faculdade. Hoje, esse caminho vai cada vez mais consolidado e ainda tem muito chão bom pela frente. Vale mencionar as colaborações pra produção do disco, do guru tecnológico Léo Germani e do artista Marcelo Amp parafusando a barriga da também gurua Leis na capa.
Como consta no encarte, a banda recomenda que se coloque o disco no Napster. Como o Napster ficou pra trás, fica aqui o link pra download do disco. Pop do bão, que é melhor.
Zumbigo (2001)
01. A Música Me Leva
02. PQP
03. Americano
04. De Volta pra Lá
05. Lata
06. Apaga o Fogo
07. Sabinada
08. Lôcô
1.2.08
Origem

Escolhi o título A Música Me Leva por ser um símbolo de um movimento musical de jovens paulistanos que já teve várias formas, e hoje tem mais participantes e agregados do que se poderia imaginar quando tudo surgiu, lá no final do século passado, por volta de 1999. Nomes como Tapete Voador e Amigos do Barley despretensiosamente precederam um grupo chamado Zumbigo. Tempos de pouca responsabilidade.
O nome A Música Me Leva reflete bem minha história, uma vez que sempre fui solto e sem muito rumo nesse mundo, e, como boa cigarra que sou, sempre fui guiado pra onde a música estava. A música sempre foi minha maior companheira, guia e fonte de inspiração. Através dela, dei sentido para o mundo e a vida que vivemos passou a ter nexo.
A Música Me Leva é a primeira faixa do disco do Zumbigo, que embalava festas de faculdades com sucessos do pop nacional em versões muitíssimo bem elaboradas e que teve sucesso entre os frequentadores das baladas nos casarões do Pacaembú, Pompéia e Perdizes.
Naquele tempo, o Renato mC ainda não era argentino e o Fábio Pinc era guitarrista baiano. Foi a época em que a música deixou de ser só diversão e passou a ser o leite das crianças.
Hoje, outros núcleos se juntaram, os nomes dos grupos são outros, alguns alcançaram a fama, a teia aumentou e a autenticidade também. O barulho cresce a cada dia, e se não sabemos até onde esse grupo de artistas e colaboradores vai chegar, podemos dizer que a evolução é contínua. E a cada dia, tudo faz mais sentido.
Em breve, mais sobre o Zumbigo.
Obs.: Acima, Daniel Padilha com seus cubos psicodélicos em foto de Wagner Kiyanitza e/ou Fernão Fortes.
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31.1.08
A Música me Leva
Não resisti.
Hoje, em uma agradável ida ao Filial - a matriz dos cults - com o ex-colorista, fotógrafo e moreno Guilherme Ribeiro, resolvi fazer mais um blog.
Mesmo não dando conta do Proibido Pisar na Grama e do Uia!, não aguentei. Vou encarar mais um. Já vinha com essa idéia há um tempo, e está decidido. Vou compartilhar com o mundo minha sagrada coleção musical. Vai desde o cd do amigo do primo do meu vizinho, que montou uma banda na semana passada, até os clássicos dignos do melhor top 10 do mais crítico dos críticos musicais. Tudo isso com o FDC - Fator Davisão de Coerência - que vai lhe ajudar a olhar pras pérolas da trilha sonora que me acompanha há 29 anos nessa indústria vital com bons e saudosos olhos.
É o meu tesouro mais precioso!! Desfrutem.
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